Fonoaudiologia e Seletividade Alimentar em Crianças: Um Olhar Além do
Por: Pediatherapies - 12 de Dezembro de 2025
A Seletividade Alimentar e o Papel da Fonoaudiologia
A hora da refeição, que deveria ser um momento de prazer e conexão familiar, muitas vezes se transforma em um campo de batalha para pais de crianças com seletividade alimentar. É comum ouvir frases como "meu filho só come três coisas" ou "ele não aceita nada que seja verde". A seletividade alimentar vai muito além de uma simples "manha" ou preferência; é uma queixa frequente que gera grande preocupação. No entanto, o que muitos pais desconhecem é o papel fundamental da Fonoaudiologia no tratamento desse desafio.
O Que Define a Seletividade Alimentar?
A seletividade alimentar, classificada como um Distúrbio Alimentar Pediátrico, é caracterizada pela recusa persistente em ingerir alimentos específicos, baseada em características sensoriais como cor, textura, cheiro ou temperatura. A criança pode apresentar um repertório alimentar extremamente restrito, o que pode comprometer seu estado nutricional, seu desenvolvimento e até mesmo sua participação social.
É crucial diferenciar a seletividade alimentar de uma fase passageira de "picky eating" (comer exigente). Enquanto o "picky eater" costuma aceitar novos alimentos após várias exposições, a criança seletiva apresenta uma aversão intensa e, muitas vezes, uma reação de angústia ou nojo diante do alimento rejeitado. Essa aversão está frequentemente ligada a questões sensoriais e motoras orais.
O Olhar da Fonoaudiologia: Além do Prato
O fonoaudiólogo é o profissional de saúde que possui conhecimento aprofundado sobre as funções orofaciais: mastigação, deglutição, sucção e fala. No contexto da seletividade alimentar, o especialista atua em diversas frentes:
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Avaliação das Habilidades Motoras Orais: Muitas vezes, a recusa está ligada a uma dificuldade motora. A criança pode não ter força ou coordenação suficiente para mastigar certos alimentos (como carnes ou vegetais crus), o que a leva a evitá-los. O fonoaudiólogo avalia a musculatura da face, língua e lábios, além da forma como a criança mastiga e engole.
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Processamento Sensorial Oral: A hipersensibilidade ou hipossensibilidade na boca pode ser a raiz da aversão. Uma criança hipersensível pode sentir a textura de um purê como algo extremamente desagradável, enquanto uma hipossensível pode não perceber o alimento na boca, levando a engasgos. O fonoaudiólogo trabalha a dessensibilização ou a estimulação sensorial de forma gradual e lúdica.
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Comportamento e Rotina Alimentar: O profissional também orienta os pais sobre a rotina, o ambiente das refeições e estratégias para a introdução de novos alimentos, sempre em conjunto com uma equipe multidisciplinar (psicólogo, terapeuta ocupacional e nutricionista).
A Intervenção Fonoaudiológica: Um Caminho de Descoberta
A intervenção é sempre individualizada e baseada no brincar. O terapeuta utiliza jogos e atividades para que a criança interaja com o alimento de forma não ameaçadora, começando pelo toque e cheiro, até chegar à degustação. O objetivo não é forçar a ingestão, mas sim criar uma relação positiva e curiosa com a comida.
Ao abordar as dificuldades motoras e sensoriais, o fonoaudiólogo ajuda a criança a desenvolver as ferramentas necessárias para explorar uma variedade maior de alimentos com segurança. É um trabalho de paciência e persistência, que celebra cada pequena conquista.
Conclusão
A seletividade alimentar exige um olhar especializado. O fonoaudiólogo é um aliado indispensável nessa jornada, ajudando a criança a desenvolver uma relação saudável e funcional com a alimentação — um pilar essencial para o seu bem-estar geral. Se a hora da refeição tem sido um estresse constante, procure um profissional para um olhar que vá além do "não gosto".